O diretor de futebol José Boto disse nesta quinta-feira (1º), no CT, que os salários de jogadores e funcionários do Flamengo não estarão em xeque nem em 2026 nem em 2027, mesmo na pior hipótese para o dinheiro das bets. O balanço do primeiro semestre mostra o tamanho da promessa: R$ 360,4 milhões gastos com pessoal em seis meses.
A fala veio na janela de entrevistas publicada pelo clube, antes dos jogadores, e respondia às dúvidas sobre o impacto das medidas recentes envolvendo as casas de apostas no planejamento do futebol. Esta página pega a frase de Boto e a coloca ao lado dos números que o próprio clube publicou sobre folha, receita e caixa até 30 de junho.
O que Boto disse
Boto disse que o clube também trabalha com a pior hipótese e que, mesmo nela, os salários “nunca estarão em xeque, nem este ano nem em 2027”, tanto dos atletas quanto dos funcionários. Depois, completou:
“Esse dinheiro é sagrado e o Flamengo vai cumprir todos os contratos que tem com os jogadores.”
Segundo o texto do clube, o diretor explicou que o Flamengo trabalha com diferentes hipóteses para a situação. Ele não citou valores; os valores abaixo saem das demonstrações financeiras do segundo trimestre, as mais recentes publicadas no portal de transparência.
Quanto o Flamengo gasta com pessoal em seis meses
O balanço separa a folha em três linhas. Duas ficam no custo das atividades esportivas, que reúne futebol e esportes olímpicos, e uma nas despesas administrativas. Os valores são consolidados, em milhões de reais:
| Linha do balanço | 1º sem. 2026 | 1º sem. 2025 |
|---|---|---|
| Salários, encargos e benefícios (esportes) | 213,5 | 207,4 |
| Direito de imagem | 105,8 | 70,0 |
| Salários, encargos e benefícios (administração) | 41,1 | 36,5 |
| Total com pessoal | 360,4 | 313,9 |
Pela conta da Redação, a folha subiu 15% em um ano, e quase toda a alta veio do direito de imagem, que cresceu 51%. O salário em carteira dos esportes variou 3%; o pagamento pelo uso da imagem dos atletas passou de R$ 70 milhões para R$ 105,8 milhões no semestre.

A folha diante da receita
No mesmo período, a receita recorrente bruta, que exclui a venda de jogadores, somou R$ 732,4 milhões, segundo o relatório da administração que abre o balanço. A linha de patrocínio e publicidade, onde entra o contrato da casa de apostas que estampa a camisa, chegou a R$ 237,5 milhões, a maior do semestre.
| Conta | Valor no semestre | Parte da receita recorrente |
|---|---|---|
| Receita recorrente bruta | R$ 732,4 mi | 100% |
| Patrocínio e publicidade | R$ 237,5 mi | 32% |
| Total com pessoal | R$ 360,4 mi | 49% |
| Ebitda recorrente | R$ 156,9 mi | 21% |
Pela conta da Redação, de cada R$ 100 de receita recorrente do semestre, R$ 49 foram para pessoal e R$ 32 vieram de patrocínio e publicidade. O Ebitda recorrente, que mede a geração de dinheiro antes da venda de atletas, ficou em R$ 156,9 milhões, com margem de 22,8% sobre a receita líquida, segundo o clube.
O semestre sem o patrocinador master
A Betano paga cerca de R$ 268 milhões por ano, valor informado pela CNN Brasil e detalhado em quanto vale a Betano para o Flamengo; o clube não publica o número. Em seis meses, isso dá cerca de R$ 134 milhões.
Na conta simples da Redação, sem esse dinheiro e sem substituto, a receita recorrente do semestre cairia para cerca de R$ 598 milhões, e a folha passaria a consumir 60% dela. O Ebitda recorrente cairia de R$ 156,9 milhões para perto de R$ 23 milhões. A receita ainda cobriria a folha, mas sobraria pouco para o resto: contratações, viagens, impostos e dívidas.
A conta é um teto de perda, porque supõe que nada ocuparia o espaço na camisa. Em petição ao STF, o próprio clube estimou perda bem maior, de até R$ 430 milhões em 2027, somando outros contratos com casas de apostas, como mostra o pedido do Flamengo como amicus curiae.
O que o caixa mostra
O caixa consolidado terminou junho em R$ 127,8 milhões, contra R$ 191,7 milhões no início do ano, uma queda de R$ 63,9 milhões, embora R$ 57,3 milhões acima da posição de 31 de março, segundo o relatório. O semestre teve R$ 495 milhões investidos em direitos de atletas, valor que o clube chama de sem precedentes para o período, puxado pela contratação de Lucas Paquetá, segundo o relatório.
No passivo, o balanço registra R$ 15,2 milhões de salários a pagar e R$ 16,2 milhões de provisão de 13º em 30 de junho, valores de rotina para o mês. O resultado do semestre foi déficit de R$ 33,8 milhões, que o clube atribui à amortização contábil de R$ 192,4 milhões dos atletas, sem saída de caixa.
Há também dinheiro que já entrou. A nota de adiantamentos registra saldo de R$ 48,7 milhões recebidos antes da hora da Kaizen Gaming do Brasil, empresa dona da Betano no país, a ser reconhecido ao longo de 2026.
A transmissão oficial da Flamengo TV é da entrevista dos jogadores que falaram no CT depois de Boto, no mesmo dia: Léo Ortiz, Saúl e Joaquín Freitas. O ano de Saúl, dito por ele mesmo, está em Saúl explica a cirurgia e os 231 minutos.



