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Quanto vale a Betano para o Flamengo: R$ 268 milhões por ano, mais que bilheteria e sócio-torcedor somados

Os balanços oficiais do Flamengo mostram o peso da Betano: patrocínio subiu 54% no semestre, R$ 48,7 mi já adiantados e 80% do superávit de 2025.

Erick Pulgar faz exercício com elástico na academia do Ninho do Urubu vestindo a camisa de treino do Flamengo com a marca Betano no peito
Arquivo: Erick Pulgar em treino na academia do Ninho do Urubu, em 20 de abril de 2026, com a Betano na frente da camisa. Gilvan de Souza / Flamengo. Gilvan de Souza / Flamengo, direitos reservados, reprodução editorial. Redimensionada; corte de exibição adaptado à tela.

A Betano paga ao Flamengo cerca de R$ 268 milhões por ano, mais do que o clube arrecadou com bilheteria e sócio-torcedor somados em 2025. Os balanços oficiais mostram o tamanho do buraco que a proibição das bets pode abrir.

A medida provisória assinada em 25 de setembro proíbe a publicidade de apostas. Pelo cronograma do Ministério da Justiça, as peças já contratadas podem ficar até 5 de outubro. Depois disso, o maior contrato de patrocínio da história do clube fica sem uso na camisa.

Dois documentos publicados pelo próprio Flamengo permitem medir esse peso: o relatório anual de 2025, auditado pela Ernst & Young, e as demonstrações do primeiro semestre de 2026. As porcentagens e estimativas são contas da Redação e aparecem indicadas como tal.

Quanto a Betano paga ao Flamengo

O contrato foi aprovado pelo Conselho Deliberativo em agosto de 2025 e vale de 20 de agosto daquele ano a 31 de dezembro de 2028, segundo a nota do clube. O Flamengo não publicou o valor; a CNN Brasil informou, no dia da aprovação, R$ 268 milhões por ano.

Pela conta da Redação, se o valor anual se mantiver nos três anos e quatro meses de contrato, o total passa de R$ 890 milhões. É o maior patrocínio do futebol brasileiro, como o próprio clube descreveu ao anunciar a parceria.

Quem é a Kaizen Gaming que aparece no balanço

O nome Betano não aparece nas notas do balanço. O que aparece é a Kaizen Gaming do Brasil, com contrato assinado em 20 de agosto de 2025, a mesma data de início do patrocínio.

A lista oficial de empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda liga as duas: a Kaizen Gaming Brasil Ltda., CNPJ 46.786.961/0001-74, é a dona da marca Betano, autorizada pela portaria nº 246, de 7 de fevereiro de 2025.

O que o balanço de 2025 mostra

A nota 15 do relatório anual de 2025 separa a receita por atividade. A linha "Patrocínio e publicidade" somou R$ 410,3 milhões no consolidado, contra R$ 322,5 milhões em 2024. É uma alta de 27%.

Somada ao licenciamento e aos royalties, de R$ 131 milhões, a área de licenciamento, patrocínio e publicidade chegou a R$ 541,3 milhões. O relatório de gestão diz que o grupo comercial avançou 23% no ano, "sustentado pela expansão dos contratos de patrocínio e licenciamento".

Por que 2025 ainda não mostra a Betano inteira

O contrato começou em 20 de agosto. Pela regra contábil descrita nas próprias notas, patrocínio direto é reconhecido "por competência", ao longo da vigência do contrato. Assim, o balanço de 2025 só carrega pouco mais de quatro meses de Betano.

Antes dela, o espaço máster tinha outro patrocinador, também do setor de apostas. Por isso, a comparação entre 2024 e 2025 não mede sozinha o efeito do novo contrato.

Vídeo de UOL Esporte. Abrir no YouTube.

O primeiro semestre de 2026, já com a Betano o tempo todo

As demonstrações de 30 de junho de 2026 são o primeiro retrato com a Betano em todos os meses. A linha de patrocínio e publicidade somou R$ 237,5 milhões no consolidado, contra R$ 154,6 milhões no primeiro semestre de 2025.

São R$ 82,9 milhões a mais em seis meses, alta de 54%. No mesmo período, a receita recorrente bruta do clube inteiro cresceu 2,9%, segundo a mesma nota 15.

O patrocínio virou a maior linha de receita do semestre

Na mesma nota 15 de junho, nenhuma linha isolada de receita supera a de patrocínio e publicidade. Os direitos de transmissão fixos somaram R$ 144,7 milhões; a bilheteria, R$ 67,8 milhões; o sócio-torcedor, R$ 52,1 milhões; e a operação do estádio, R$ 60,8 milhões.

Com R$ 237,5 milhões, o patrocínio respondeu por cerca de 32% da receita recorrente bruta do semestre, de R$ 732,4 milhões. A conta é da Redação, a partir dos números do balanço consolidado.

O dado ajuda a entender por que a MP pesa mais no Flamengo do que em clubes com contratos menores. Quanto maior o patrocínio da camisa, maior a fatia da receita presa a uma única decisão do governo.

Quanto a Betano pesa no patrocínio do clube

O balanço não abre o valor de cada patrocinador. Mas dá para estimar. Se os R$ 268 milhões anuais forem reconhecidos em partes iguais, seis meses de Betano equivalem a cerca de R$ 134 milhões.

Pela conta da Redação, isso seria algo como 56% de tudo o que o Flamengo registrou em patrocínio e publicidade no primeiro semestre. A estimativa depende do valor informado pela imprensa e de que não haja parcelas variáveis no período.

O dinheiro que já entrou antes da hora

A nota 12 das demonstrações de junho lista os adiantamentos recebidos. Na linha de licenciamento e patrocínio, o clube tinha R$ 108,9 milhões recebidos antes de o serviço ser prestado, contra R$ 13,6 milhões no fim de 2025.

Desse total, R$ 48,7 milhões são da Kaizen Gaming, "que será apropriado ao longo de 2026", diz o documento. Ou seja: parte do patrocínio deste ano já foi paga. O balanço não informa o que acontece com esse saldo se o contrato for interrompido.

O que o clube ainda tem a receber

A nota 4 das demonstrações de junho mostra o outro lado: o dinheiro contratado que ainda não entrou. A linha de licenciamento de marca e patrocínios somava R$ 57,4 milhões a receber em 30 de junho, contra R$ 117,9 milhões no fim de 2025.

O balanço não separa quanto desse saldo é da Kaizen Gaming. Juntas, a conta a receber e o adiantamento mostram que o contrato não é só uma marca na camisa: é um fluxo de caixa já programado até dezembro.

A Betano contra a bilheteria e o sócio-torcedor

A mesma nota 15 do balanço de 2025 dá uma régua. A bilheteria rendeu R$ 142,5 milhões no ano. O programa de sócio-torcedor, R$ 87,7 milhões.

Somadas, as duas linhas dão R$ 230,2 milhões, menos que um ano de Betano. Em outras palavras, o contrato de camisa vale mais do que todo o dinheiro que o torcedor deixou em ingressos e mensalidades de sócio em 2025.

Arrascaeta, de costas, com cabelo descolorido e o nome DE ARRASCAETA e o número 10 na camisa, levanta o punho fechado
Arquivo: Arrascaeta comemora o gol de empate contra o Del Valle, que levou o Flamengo à semifinal da Libertadores, em 17 de setembro de 2026. Foto publicada pelo clube; direitos reservados. Origem: flamengo.com.br.

A Betano contra a receita total e o superávit

O Flamengo teve receita bruta total de R$ 2,089 bilhões em 2025, incluindo R$ 519 milhões com venda de atletas. A receita recorrente, sem vendas, foi de R$ 1,571 bilhão.

Pela conta da Redação, R$ 268 milhões equivalem a 12,8% da receita total e a 17,1% da recorrente. O superávit de 2025 foi de R$ 336 milhões. Um ano de Betano corresponde a 80% desse resultado.

O primeiro semestre de 2026 fechou com déficit de R$ 33,8 milhões, puxado pela amortização dos reforços. Só no segundo trimestre, isolado, o clube teve superávit de R$ 30,1 milhões.

A Betano contra a maior contratação do ano

O relatório do semestre informa que Lucas Paquetá custou R$ 315,7 milhões ao Flamengo, com os custos de intermediação, na contratação junto ao West Ham. O clube chamou a operação de "principal movimento" do semestre.

Um ano de Betano cobre cerca de 85% desse valor. A comparação ajuda a medir a escala: o patrocínio da camisa, sozinho, paga quase uma contratação desse porte por temporada.

Quanto está em jogo até 2028

Em média, R$ 268 milhões por ano dão cerca de R$ 22,3 milhões por mês. Pela conta da Redação, o período entre 6 de outubro e 31 de dezembro de 2026 vale perto de R$ 64 milhões, se o valor for distribuído de forma igual ao longo do ano.

Somadas as temporadas de 2027 e 2028, que o contrato também cobre, o valor sob risco chega perto de R$ 600 milhões. É a soma do que falta do contrato, não uma perda confirmada: ela depende do que clube e empresa acertarem e do que o Congresso fizer com a MP.

O relatório anual não informa se há multa, compensação ou devolução prevista em caso de mudança na lei. Sem o contrato publicado, não é possível dizer quanto desse total o clube deixaria, de fato, de receber.

De onde vem a conta de R$ 400 milhões de Bap

Em entrevista à CNN Brasil, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, disse que o clube estima "perdas imediatas de receita para o ano que vem" de R$ 400 milhões a R$ 430 milhões. Ao Poder360, falou em "alguma coisa como R$ 400 milhões", "direta ou indiretamente".

A Betano explica R$ 268 milhões dessa conta. A diferença, de R$ 132 milhões a R$ 162 milhões pela conta da Redação, fica com as demais receitas ligadas ao setor, e Bap incluiu os esportes olímpicos no impacto.

Atualização em 28/09: no MengoCast #66, publicado pela Flamengo TV na noite desta segunda-feira, Bap usou a maior contratação do ano como exemplo. "Vou dar um exemplo clássico: como vou pagar o Paquetá em janeiro?", disse, segundo a transcrição do UOL.

Na mesma fala, reproduzida pelo UOL, o presidente disse que a medida "compromete as receitas do futuro, e isso afeta a folha do futebol, as contratações que fizemos, os pagamentos que temos de fazer". Pelo UOL, o acordo com o West Ham prevê parcelas até janeiro de 2028.

O contrato vai além do futebol

A nota do clube sobre a aprovação diz que a marca aparece nos uniformes do futebol profissional e das equipes olímpicas, como vôlei, basquete e futebol feminino, além da FlamengoTV. O acordo prevê "diferentes formatos de remuneração".

Por isso, o efeito da proibição não fica só no time de Leonardo Jardim. Bap disse à CNN Brasil que a medida traria "impactos desastrosos para o Flamengo como um todo, não só no futebol, mas também nos esportes olímpicos".

O que a Betano e o clube disseram

Antes da MP, a Betano disse ao Lance! que "monitora com muita preocupação a discussão atual no país e tomará decisões no momento apropriado". Depois da assinatura, não se manifestou publicamente sobre o contrato com o Flamengo.

O clube publicou a nota "Proibir não acaba com o jogo", em que defende o mercado regulado e diz que a mudança põe em risco "os investimentos, os empregos e os compromissos construídos dentro das regras". A reação completa está em a matéria sobre a resposta do Flamengo à MP.

O que o clube escreveu em julho, antes da MP

No relatório do semestre, publicado em 30 de julho, a diretoria escreveu que "os contratos já assinados dão a sustentação necessária para atravessar o ciclo com tranquilidade". O texto é anterior à proibição.

O mesmo documento lembra que o primeiro semestre "normalmente apresenta um resultado inferior" ao segundo. Quando o texto foi escrito, o contrato com a Betano ia até 2028.

Quem pode ocupar o espaço e por quanto

Neste domingo, 27, a Fatal Model disse ao Lance! ter oferecido mais de R$ 100 milhões por um ano de máster. O Flamengo afirmou ter recebido só um e-mail, sem tratá-lo como proposta. Às 16h37, o clube publicou um comunicado oficial em que chama a informação de inverídica e diz que não existe, neste momento, negociação nos termos divulgados; a nota e o contexto estão em a negativa oficial do Flamengo.

Pela conta da Redação, o valor anunciado equivale a 37% do que a Betano paga. Empresas de fora do setor de apostas podem patrocinar normalmente; a MP só proíbe a publicidade de bets.

A curva comercial que o clube construiu

O relatório de 2025 mostra a receita comercial, em valores corrigidos pela inflação, saindo de R$ 166 milhões em 2019 para R$ 541 milhões em 2025. O salto de 2024 para 2025 foi de R$ 100 milhões.

Pela conta da Redação, com os números do mesmo gráfico, o comercial representava 18% da receita recorrente em 2019 e passou a 34% em 2025. Na proporção, uma mudança nos contratos comerciais pesa hoje quase o dobro do que pesava sete anos atrás.

Parte dessa curva depende do setor de apostas, que ocupa o espaço mais caro da camisa desde antes da Betano. O relatório cita, como agenda para os próximos anos, "a expansão dos contratos de licenciamento e patrocínio".

O que falta saber

Falta saber se o contrato com a Betano tem cláusula para o caso de proibição, o que acontece com o adiantamento de R$ 48,7 milhões e quem vai ocupar a camisa. A MP ainda passa pelo Congresso, que tem até 120 dias para votá-la.

O primeiro jogo depois do prazo de 5 de outubro é Santos x Flamengo, em 8 de outubro. Para ler os números do clube sem confundir receita com caixa, veja como ler o balanço do Flamengo.

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