Os grandes títulos vieram depois. Tese de doutorado da UFF mostra que o Flamengo ganhou o país entre 1933 e 1955, ao ligar o futebol profissional ao discurso nacionalista da época.
A explicação mais repetida para o tamanho da torcida rubro-negra costuma juntar duas coisas: o rádio e as vitórias. A pesquisa acadêmica mais completa sobre o tema diz que nenhuma das duas basta.
A Redação leu a íntegra da tese de Renato Soares Coutinho, "Um Flamengo grande, um Brasil maior", defendida em 2013 no doutorado em História da Universidade Federal Fluminense, com orientação de Jorge Ferreira. O recorte vai de 1933, ano do profissionalismo no clube, a 1955.
O que a tese conclui
A frase de abertura da conclusão resume o trabalho: entre as décadas de 1930 e 1950, "a popularidade do Flamengo foi inventada". Para o autor, a preferência popular não estava presente desde a fundação. Ela foi construída por escolhas de dirigentes, da imprensa esportiva e dos próprios torcedores.
O ponto de virada, segundo a tese, é este: o Flamengo foi "o primeiro clube de futebol no Brasil que se apropriou do bem-sucedido discurso nacionalista estatal". Com campanhas e ações sociais, o clube de remo de origem elitista passou a falar com os setores populares e a reivindicar o posto de clube da nação.
Logo nas primeiras páginas, o autor descarta duas explicações comuns. A primeira é a do time vencedor: as principais conquistas ficam entre 1978 e 1983, mas os três maiores públicos do clube são anteriores à Era Zico, em 1963 e em 1969, contra o Fluminense, e em 1976, contra o Vasco. A segunda é a de uma vocação popular de nascença, que a tese contesta lembrando o perfil elitista do clube no período amador.
O concurso que deu o apelido de Mais Querido
A disputa pelo título de clube mais popular é anterior aos anos 1930. A tese registra um concurso de 1927 do Jornal do Brasil, patrocinado pela água Salutaris, que deu ao Flamengo a Taça Salutaris. O Museu Flamengo situa em janeiro de 1928 o surgimento da alcunha "o Mais Querido", a partir dessa votação, e informa que a taça está no acervo do clube.
A tese conta também a versão consagrada pelo escritor Edilberto Coutinho no livro "Nação rubro-negra", de 1990: torcedores do Flamengo teriam se passado por vascaínos, recolhido cupons do Vasco e jogado os papéis fora. É uma versão da memória do clube, e o autor a apresenta assim, sem tratá-la como fato comprovado.
Segundo a mesma pesquisa, as consultas feitas a partir dos anos 1930 confirmaram a liderança, e a revista Placar consolidou as pesquisas de torcida nos anos 1970. O museu acrescenta que a Placar deu ao Flamengo novo título de Mais Querido em 1973, com taça guardada na Gávea.
O vídeo acima, do canal oficial Flamengo TV, mostra a inauguração do Museu Flamengo na Gávea, onde fica a Taça Salutaris. O espaço foi reaberto ao público em 14 de julho de 2026, segundo o site oficial do clube.
1933: profissionalismo e a gestão Padilha
O divisor de águas, pela tese, é a década de 1930. Em 19 de maio de 1933, o conselho deliberativo aprovou o profissionalismo por 117 votos a 49, três meses depois de rejeitar a ideia por aclamação. O primeiro jogo profissional foi um amistoso contra o Fluminense, em 1º de junho de 1933.
A virada aconteceu na gestão de José Bastos Padilha, presidente de 1933 a 1937. Ele usou o Jornal dos Sports, que passou ao comando de Mario Filho em 1936, como vitrine: a foto do dirigente aparecia na capa, e as campanhas do clube ganhavam reportagens que chegavam a ocupar três páginas.
Leônidas, Domingos e Fausto
Em 1936, o clube contratou Leônidas da Silva, em 10 de julho, e Domingos da Guia, em 1º de agosto. Com Fausto, eles formaram o que a tese chama de tríade simbólica: jogadores negros que, segundo o autor, ajudaram a imprensa a apresentar o clube como representante da nova raça brasileira.
A tese pondera que contratar jogadores negros não bastou. O próprio Mario Filho, citado no trabalho, apontava o profissionalismo como fator determinante da popularização. A trajetória de Leônidas no clube está na matéria sobre o craque nos anos 1930.
1937: "Pelo Brasil e pelo Flamengo"
O ponto alto das campanhas, segundo o autor, veio em 1937. O clube lançou um plano de educação física para crianças e, com o Jornal dos Sports e O Globo, um concurso infantil chamado "Pelo Brasil e pelo Flamengo". Crianças de até 15 anos colecionavam selos publicados nos jornais e enviavam uma frase que unisse as duas palavras.
A frase-modelo era a das medalhas dos atletas do clube nas Olimpíadas de 1936: "Como Flamengo, servi ao Brasil". Os selos saíram de 2 de março a 30 de abril, o resultado veio em 4 de maio e a comissão, formada por Padilha e Mario Filho, examinou 5.526 cartas. Os prêmios iam de bicicletas a bonecas.
Uma das frases vencedoras virou lema. Anos depois, um novo presidente pediu aos rubro-negros fidelidade ao "tradicional lema do clube": "O Flamengo ensina: amar o Brasil sobre todas as coisas". A tese observa que nenhum outro clube insistiu tanto em associar a própria marca à nação, nem o Fluminense.

E o rádio?
A Rádio Nacional, inaugurada em 12 de setembro de 1936, foi incorporada ao patrimônio da União pelo Decreto-lei 2.073, de 8 de março de 1940. Segundo a dissertação de Daniel Damasceno Crepaldi, da UnB, a emissora ganhou ondas curtas de 50 kW em 31 de dezembro de 1942.
A mesma dissertação registra que os jogos dos clubes do Rio eram ouvidos nos "rincões do país, mormente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste". Até a chegada da Nacional, a líder de audiência desde 1934 era a Mayrink Veiga.
A tese da UFF não nega o peso do rádio, mas diz que o papel da Rádio Nacional "precisa ser relativizado". O argumento: a emissora transmitia o futebol carioca inteiro, e Botafogo e Fluminense não se nacionalizaram na mesma escala. O diferencial, para o autor, foi o vínculo do Flamengo com o nacionalismo. O museu do clube vai na mesma linha: todos os clubes eram irradiados.
Anos 1950: Gilberto Cardoso e as excursões
A segunda fase da construção veio com Gilberto Cardoso. O clube passou a viajar com frequência pelo Brasil e fez suas primeiras grandes excursões pela Europa. A de 1954 durou de 7 de abril a 26 de maio, com 12 jogos, e foi divulgada como "propaganda do Brasil".
Num desfile de atletas rubro-negros, o presidente Café Filho disse: "Este é o Brasil que se deve mostrar lá fora". A tese anota ainda que, dos 247 jogos com mais de 100 mil pessoas na história do Maracanã, o Flamengo esteve em 103, contra 58 do Vasco, o segundo. O começo dessa relação com o estádio está na matéria sobre a estreia no Maracanã.
O que as pesquisas mostram
Para medir o resultado, a tese usa a pesquisa Ibope feita para o Lance! em outubro de 1998, com 3 mil entrevistados acima de 16 anos. O Flamengo liderou entre homens, com 17% contra 11% do Corinthians, e entre mulheres, com 14% contra 10%.
A vantagem cresce longe do Rio. No Norte e no Centro-Oeste, o levantamento deu 24% ao Flamengo e 8% ao Corinthians; no Nordeste, 19% contra 5%. Entre quem ganhava até dois salários mínimos, foram 15% contra 7%. As exceções apontadas são Recife e o Rio Grande do Sul, onde dominam os clubes locais.
O autor cita também uma pesquisa de 2011 em Cuiabá, com 20,8% para o Flamengo e o Mixto, clube local, em sexto, com 4,5%. E registra o Datafolha de dezembro de 2012, feito dias depois do título mundial do Corinthians: 16,27% para o Flamengo e 15,56% para o rival, empate técnico.
O limite desta leitura
A tese é um trabalho acadêmico com uma interpretação: a de que a popularidade foi construída por um projeto ligado ao nacionalismo do período Vargas. Ela não esgota o tema, e os números de torcida citados são de pesquisas antigas, de 1998 a 2012, reproduzidas pelo autor.
As edições do Jornal dos Sports dos anos 1930 aparecem aqui como citadas na tese. A Redação tentou abrir a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional em 30 de setembro de 2026, e o endereço não respondeu. A história da sede onde tudo isso foi decidido está na matéria sobre a Gávea.



