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Piqué convidaria Flamengo e Corinthians para a Kings League

Piqué disse à CNN Brasil que convidaria Flamengo e Corinthians para conversar. O obstáculo é comercial: a Kings League tem a Adidas, e os dois clubes não vestem a mesma marca.

Pedro, de camisa rubro-negra listrada com o símbolo da Adidas e calção branco, corre de braços abertos ao lado da trave e da rede, com o goleiro adversário de roxo à esquerda e a arquibancada desfocada ao fundo
Pedro comemora gol no Maracanã na vitória por 2 a 1 sobre o Red Bull Bragantino, em 20 de setembro de 2026; na camisa, o símbolo da Adidas. Foto de arquivo: Gilvan de Souza / CRF. Gilvan de Souza / CRF, direitos reservados, reprodução editorial. Redimensionada; corte de exibição adaptado à tela.

Gerard Piqué, criador da Kings League, disse à CNN Brasil que convidaria Flamengo e Corinthians para “se sentarem com a gente” e montar alguma parceria. Ele mesmo apontou o obstáculo: a liga tem a Adidas como parceira principal, e clubes de outra marca exigem negociação.

Não houve proposta formal, e a fala não diz que Flamengo ou Corinthians foram procurados. É um dono de liga falando de um desejo, em entrevista ao programa CNN Esportes S/A, que foi ao ar no domingo (11), às 21h15. A frase vale pelo que revela da conta de negócios por trás dela.

E essa conta separa os dois clubes. Pelo que está público, o Flamengo veste Adidas até dezembro de 2029, a mesma marca que Piqué cita como parceira da Kings League. O Corinthians veste Nike até 2036, a marca do exemplo que ele deu, o Barcelona. O problema que ele descreve pesa muito mais de um lado que do outro.

O que Piqué disse, e o que a CNN não escreveu

A matéria da CNN Brasil, publicada em 11 de outubro às 10h23, assinada por Gustavo Riguetti, traz o trecho central. Sobre a entrada de clubes brasileiros, Piqué disse: “Eu os convidaria a se sentarem com a gente para que todos juntos, de alguma forma, conseguíssemos criar algum tipo de parceria. Todos esses clubes, como Flamengo e Corinthians, eu acredito que poderiam tentar encontrar uma forma de estar na Kings League. Eu acho que isso teria um impacto positivo nas novas gerações.”

Sobre a parte contratual, ele foi direto: “Tudo é conversável. Acredito que seria possível. Tem alguns desafios aí, como, por exemplo, em termos comerciais, a gente tem a Adidas como nosso parceiro principal. Quando a gente negocia com clubes, como, por exemplo, o Barcelona, que é Nike, a gente tem que encontrar uma forma de negociar. Mas o desafio, eu diria, é mais comercial do que qualquer coisa.”

Depois vem uma frase que merece cuidado: “Depois de solucionar essa parte, eu acho que tem muitos times por aí que estão querendo ter uma equipe e estamos falando com eles.” A CNN não diz quem são esses times. Pode ser um clube, pode ser um empresário ou um streamer que quer montar uma equipe. O texto não permite afirmar que a Kings League conversa com o Flamengo ou com o Corinthians.

A mesma fala já circulava antes. A ESPN.com.br publicou o trecho em 8 de outubro, segundo o horário da própria página, e acrescentou que, oficialmente, nenhum clube tradicional está envolvido com a Kings League no país. O exemplo mais próximo, escreveu a ESPN, é o Funkbol Podpah, que usa parte da estrutura social do Corinthians.

Nas buscas da Redação em 13 de outubro, não apareceu resposta pública do Flamengo nem do Corinthians ao convite. Sem resposta, vale ler o que ele disse como o que é: uma abertura de conversa, dita em entrevista.

Adidas de um lado, Nike do outro: o que cada contrato diz

O desafio que Piqué descreve é de marca. A Kings League tem a Adidas como parceira principal, segundo ele, e clube vestido por outra fabricante precisa de acordo para entrar. Ele não deu detalhes de como seria esse acordo, e o contrato da liga com a Adidas não é público.

Para o Flamengo, a pergunta é simples de responder em parte. A Adidas fornece material ao clube desde 2013. O Lance! detalhou em abril de 2024 o contrato que o clube levava ao Conselho Deliberativo: vigência até dezembro de 2029, mínimo de R$ 44 milhões por ano, luvas anuais de R$ 13 milhões e um piso de R$ 2 milhões para ações de marketing. Em agosto de 2025, a Super Rádio Tupi registrou a renovação como aprovada e o valor anual na casa de R$ 70 milhões.

Para o Corinthians, o caminho é outro. Segundo o InfoMoney, em 25 de junho de 2025, o clube assinou um memorando para renovar com a Nike até 2036, com R$ 59 milhões por ano, corrigidos anualmente, quase o dobro do que recebia até então. A parceria começou em 2003. A renovação veio depois de uma negociação com a própria Adidas, que a Máquina do Esporte descrevia em maio de 2025 como uma proposta de cerca de R$ 69 milhões por ano.

ClubeFornecedoraVigênciaValor anual publicado
FlamengoAdidas (desde 2013)até dezembro de 2029mínimo de R$ 44 mi + R$ 13 mi de luvas; cerca de R$ 70 mi no total
CorinthiansNike (desde 2003)até 2036R$ 59 mi, com reajuste anual

A conta da Redação: R$ 70 milhões menos R$ 59 milhões dá R$ 11 milhões por ano de diferença a favor do Flamengo. A comparação mistura fontes de datas diferentes, 2024 e 2025 para o Flamengo e junho de 2025 para o Corinthians, e serve só como ordem de grandeza. Nenhum dos dois clubes publicou o contrato na íntegra.

Por que a frase de Piqué pesa mais para o Corinthians que para o Flamengo

Leitura da Redação, apoiada nos números acima: se o obstáculo é a marca, o Flamengo não tem esse obstáculo. O clube e a liga, pelo que Piqué disse, estão do mesmo lado da camisa, o das três listras. O Corinthians está do lado oposto, e com um contrato renovado em 2025 por mais dez anos.

Isso não quer dizer que o caminho do Flamengo seja livre. O contrato do clube com a Adidas tem cláusulas que não estão públicas, e nada permite afirmar o que elas dizem sobre ligas de terceiros. O que se pode dizer é que o argumento comercial que Piqué usou, o da marca concorrente, não se aplica ao rubro-negro nos termos em que ele o descreveu.

O exemplo do Barcelona ajuda a medir. Piqué citou o clube catalão como caso de negociação com um clube de Nike. Ele não disse o resultado, e o ponto serve só para mostrar que, na visão dele, o impasse de marca se resolve conversando, mas dá trabalho. No Corinthians, esse trabalho passaria por um contrato novo, de longa duração e com um valor que o clube dobrou em 2025.

Camisa clara com mangas marrons e gola rubro-negra, escudo do Flamengo no peito e um urubu desenhado em linhas finas entre os números 2019 e 2025
Imagem oficial da camisa Urubu de Lima, vencedora do Manto da Nação, edição especial vendida pelo Flamengo fora do uniforme de jogo. Imagem: Divulgação/Flamengo; direitos reservados. Origem: flamengo.com.br.

Há ainda o resto da camisa. O Flamengo tem a Betano no peito, e a conta desse acordo está no texto sobre quanto vale a Betano para o Flamengo. Qualquer time em uma liga nova teria de caber nesses contratos, e os termos de cada um não são públicos. O clube também já vende camisas fora do uniforme de jogo, como mostrou a Urubu de Lima, do Manto da Nação.

Quem já joga a Kings League no Brasil

A liga brasileira estreou em 29 de março de 2025, em Guarulhos, com 10 equipes, segundo o Lance!. A lista tinha a Fúria, de Neymar e Cris Guedes, o G3X, de Gaules, o Real Elite, de Ludmilla, o Funkbol, de Kond, Michel Elias e MC Hariel, e times de streamers como Capim, Desimpedidos, Dendele, Fluxo, Nyvelados e Loud. Os ingressos custavam de R$ 36,75 a R$ 73,50.

O formato é de futebol de sete, em dois tempos de 20 minutos, com um jogador de linha e o goleiro no começo e novos jogadores entrando a cada minuto. O presidente do time pode cobrar o “pênalti do presidente”. É um jogo desenhado para o vídeo curto, e quem dirige as equipes são criadores de conteúdo.

Na entrevista, Piqué defendeu exatamente isso. Segundo a CNN Brasil, disse que streamers “são as novas estrelas do rock dos anos 80” e que a liga deu a qualquer torcedor a chance de ser dono de um time. Sobre o Brasil, contou à CNN que Neymar “queria estar envolvido” se a liga chegasse ao país, e que escolheu Kaká para presidir a Kings League brasileira por ser alguém “mais política”, que tivesse boa relação com todo mundo. O Lance! chamou Kaká de embaixador da liga na estreia, e a CNN o descreve como presidente; a página não esclarece a diferença.

Piqué também disse, segundo a CNN Brasil, que a liga “é um projeto para sempre” e que começou com dinheiro dele no primeiro ano, até a expansão pedir uma rodada de investimentos, da qual entraram dois fundos americanos. Ou seja, o dono que convida o Flamengo é o mesmo que bancou o produto antes de ele provar que funcionava.

O que o Flamengo teria a decidir

Se um dia a conversa existir, o clube terá de responder questões que a entrevista não toca. Que time seria: um elenco de verdade ou uma marca com presidente famoso, como são as equipes de hoje? Quem paga a operação? A Adidas aceitaria o nome do clube em uma liga com outra lógica de patrocínio? Nada disso foi dito por Piqué, e nada disso está nas fontes. São as questões que a própria fala deixa em aberto.

Há um precedente curto e próximo: o Funkbol Podpah, segundo a ESPN, usa parte da estrutura social do Corinthians sem que o clube esteja formalmente na liga. É o modelo de parceria mais leve que existe hoje no país, e a Redação não encontrou notícia de que o Flamengo tenha algo parecido.

Para quem torce, o ponto prático é este: nesta terça-feira (13), não há anúncio, não há contrato e não há resposta dos clubes. Se algo andar, o caminho é a nota do Flamengo no próprio site do clube e a entrevista completa, que a CNN deixou no canal do CNN Esportes no YouTube.

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