Carlo Ancelotti apoiou o corte de estrangeiros aprovado pela CBF, regra contra a qual o Flamengo votou e que, com o elenco atual, deixaria fora da súmula metade dos dez estrangeiros.
O técnico da Seleção falou na entrevista coletiva de quinta-feira (24), em Townsville, na Austrália, véspera do primeiro amistoso da Data Fifa. Segundo o Lance, ele disse: "Eu acho que a redução de estrangeiros no futebol brasileiro é um aspecto muito importante para dar oportunidade ao talento brasileiro, que é muito, mas é também uma oportunidade para todo o Campeonato Brasileiro".
E completou: "Me parece que não é um demérito reduzir, ano após ano. É uma coisa muito positiva para o futebol". A coletiva foi transmitida pelo canal oficial da CBF.
O que a CBF aprovou e quando começa
A regra saiu da reunião de 21 de setembro, no Rio, entre a CBF e os 40 clubes das Séries A e B. Pela nota oficial da CBF, o limite de estrangeiros em súmula, hoje de 9, cai para 8 em 2027, 7 em 2028, 6 em 2029 e 5 em 2030, o mesmo patamar de 2022.
A lista de inscritos continua com 50 nomes por clube, mas passa a ser dividida entre atletas acima de 23 anos (Lista A) e sub-23 (Lista B). A divisão começa em 30 e 20 em 2027 e chega a 25 e 25 em 2030. A CBF diz que a proposta foi aprovada "com apenas dois votos contrários".
Por que o Flamengo votou contra
Um dos dois votos contrários foi do Flamengo, segundo o ge. Pelo relato do site, o presidente Luiz Eduardo Baptista pediu que também fosse votada a flexibilização do limite de 12 jogos para um atleta trocar de clube dentro do Brasileirão. A CBF não abriu esse ponto por não estar na pauta, e Bap então votou contra o limite de estrangeiros e contra a mudança nas listas.
A Coluna do Fla fala em três votos contrários, com Bahia e Londrina. A nota da CBF e o ge falam em dois. Os detalhes da votação e a posição do diretor José Boto estão na matéria sobre a decisão da CBF.

A conta para o elenco do Flamengo
O Flamengo tem hoje dez estrangeiros no elenco: Rossi, Varela, De la Cruz, Saúl, Pulgar, Arrascaeta, Plata, Valencia, Joaquín Freitas e Carrascal, lista do ge. Com o limite de 9, já precisa deixar um fora de cada súmula do Brasileirão quando todos estão disponíveis.
Refazendo a conta com o cronograma da CBF, e mantido o grupo atual: seriam 2 fora em 2027, 3 em 2028, 4 em 2029 e 5 em 2030. Na última etapa, metade dos estrangeiros de hoje ficaria fora de cada jogo. A regra limita a súmula, não o elenco, e o ge lembra que parte desses jogadores pode sair antes, como Plata, Saúl e De la Cruz.
O que os números da CBF mostram
A CBF sustenta o corte com dados de um estudo da CBF Academy. Em 2026, atletas sub-23 ficaram com 13,8% do tempo de jogo da Série A, contra 28% a 38% nas cinco grandes ligas europeias analisadas. Entre 2020 e 2026, a fatia de estrangeiros acima de 23 anos subiu de 7,8% para 25% do tempo em campo.
Há um dado que relativiza o impacto imediato: a média da Série A é de 5,4 estrangeiros relacionados por partida, segundo a mesma nota. Ou seja, o limite de 8 em 2027 aperta pouco a maioria dos clubes. O Flamengo, com dez estrangeiros para nove vagas, sente cada degrau desde o primeiro ano.
Ancelotti e Boto em lados opostos
A fala de Ancelotti saiu no mesmo dia em que Boto criticou a medida em Portugal. Ao jornal Record, o diretor disse que a mudança "enfraqueceria a liga brasileira" e que os jogadores brasileiros "vão continuar a sair muito cedo".
O argumento do técnico da Seleção é o oposto: mais espaço para o jogador brasileiro no campeonato. Pelo Correio, Ancelotti também participou das discussões que levaram à mudança. A coletiva completa está abaixo.
Jorge Jesus, ex-técnico do Flamengo, fica do lado de Boto
Dois dias depois, a medida ganhou outro crítico com passagem pelo clube. Jorge Jesus, campeão da Libertadores e do Brasileirão pelo Flamengo em 2019 e hoje técnico de Portugal, falou do assunto no sábado (26), na coletiva de véspera de Portugal x Noruega, pela Liga das Nações.
Segundo o Diário do Grande ABC, com texto do Estadão Conteúdo, ele disse: "Não é o fato de reduzir o número de nove para cinco jogadores que vai melhorar o futebol brasileiro". E comparou com Portugal, que para ele forma bem atletas mesmo sem limite: "se o treinador quiser, pode atuar com 11 jogadores estrangeiros aqui".
Para Jesus, o problema está em outro lugar: "O problema é a formação, é a qualidade da formação e o calendário de partidas". Ele ainda defendeu os Estaduais como fonte de crescimento para o jogador que surge no Brasil.



