O Flamengo trata a frase "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" como regra: o estatuto do clube manda imprimi-la em todos os papéis oficiais e a declara imutável, como o nome e as cores.
A frase não saiu de um hino nem de uma campanha publicitária. Ela é atribuída a Júlio Silva, folião do Carnaval carioca e frequentador do clube, que a teria criado no fim da década de 1920, segundo pesquisa do escritor Paulo Tinoco e o próprio Flamengo, em vídeo da Flamengo TV publicado em 24 de setembro. Só nos anos 1940 ela chegou à arquibancada, pela marcha de Lamartine Babo.
Quem criou a frase
Júlio Silva era pernambucano, torcedor rubro-negro e conhecido no Rio por um bloco de Carnaval de um homem só, o Bloco do Eu Sozinho, que ele fundou em 1919. No clube, foi atleta e participou do departamento social, de acordo com o vídeo da Flamengo TV.
Segundo o livro Flamengo, o Fenômeno Nacional, de Paulo Tinoco, apresentado pelo site SerFlamengo, Júlio criou a expressão em outubro de 1929, durante um evento com jovens atletas do clube. No Carnaval de 1930, a frase completa já aparecia na decoração do rinque da sede da Rua Paissandu.
O vídeo do clube faz questão de separar as duas coisas: a frase é de Júlio Silva, do fim dos anos 1920, e não do concurso de frases que o Flamengo promoveu anos depois. As duas histórias costumam ser contadas como uma só.
Como ela virou regra do clube
Quem transformou a frase em marca oficial foi José Bastos Padilha, que assumiu a presidência do Flamengo em 1933. No vídeo da Flamengo TV, o historiador ouvido pelo clube diz que a frase foi incorporada ao estatuto como lema, em mudança aprovada no fim de 1934 e confirmada em 1935.
A data varia conforme a fonte. Paulo Tinoco diz que a expressão passou a constar dos documentos oficiais em 1935; outros relatos de torcedores falam em 1936. Em todas as versões, a frase entra no papel do clube na gestão Padilha, a mesma que levou o Flamengo ao profissionalismo e construiu a sede da Gávea.
O que o estatuto diz hoje
A regra continua em vigor. O Estatuto Social do Flamengo, aprovado em 1992 e consolidado com as mudanças votadas pelo Conselho Deliberativo até 3 de março de 2020, trata a frase como "legenda" do clube em dois artigos.
O artigo 158 determina que a legenda seja "obrigatoriamente impressa em todos os papéis de expediente". O artigo 159 diz que são imutáveis "o nome, as cores vermelha e preta, o hino, o pavilhão, os escudos e a legenda do FLAMENGO".
Na prática, a frase está no mesmo nível do nome e das cores: para mudá-la, o clube teria de alterar o próprio estatuto. O texto de apresentação do estatuto, assinado pelo presidente do Conselho Deliberativo no biênio 1991 e 1992, também termina com ela.

Onde a frase aparece nos documentos atuais
A Redação conferiu a regra em um documento recente do clube. A proposta do Flamengo para a qualidade dos gramados no regulamento das competições da CBF de 2026, publicada no portal de transparência e assinada pelo presidente Bap, traz "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" no alto de cada página, acima do nome do clube.
É o mesmo tema da troca de gramado que o Maracanã começou em setembro, explicada na matéria sobre o campo novo. O cabeçalho vem antes de qualquer assunto: o documento sobre grama sintética começa, como os outros, pela frase de 1929.
O concurso de 1937 não criou a frase
A confusão mais comum mistura a frase de Júlio Silva com o concurso que Padilha lançou em 1937. Segundo o historiador Renato Soares Coutinho, em artigo apresentado no encontro da Anpuh-Rio de 2010, o concurso Pelo Brasil e pelo Flamengo premiava crianças de até 15 anos que escrevessem a melhor frase com as palavras Brasil e Flamengo.
O Jornal dos Sports, dirigido por Mário Filho, cunhado de Padilha, divulgou a disputa. Os dois estavam na comissão julgadora, e as frases vencedoras foram "O Flamengo ensina: amar o Brasil sobre todas as coisas", "Flamengo: sentinela do Brasil" e "Brasil e Flamengo: palavras que se confundem em um mesmo sentimento", de acordo com Coutinho.
O objetivo, segundo o pesquisador, era ligar o clube à identidade nacional e formar uma nova geração de torcedores. O vídeo do clube acrescenta que as famílias mandavam as frases por carta ao jornal, de vários estados.
Como a frase chegou à arquibancada
O caminho até a torcida passou pelo rádio. Lamartine Babo compôs a marcha do Flamengo em 1944, durante o programa Trem da Alegria, da Rádio Nacional, e aproveitou versos de Júlio Silva, segundo a Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles.
A primeira gravação, do grupo Quatro Ases e Um Curinga, saiu pela Odeon em 2 de dezembro de 1944 e fez sucesso no Carnaval de 1945, ainda de acordo com o IMS. A frase abre a música, e é assim que o torcedor a canta até hoje no Maracanã.
A marcha não é o hino oficial. O Flamengo tem dois hinos, o Hino Rubro-Negro, de Paulo Magalhães, e a marcha de Lamartine, e a cronologia dos dois está na matéria sobre os hinos do clube. O estatuto reproduz as duas letras no apêndice.
As outras frases da torcida
O episódio da Flamengo TV, da série Corre o Tempo no Olhar, usa a frase de Júlio Silva para contar como o clube e a torcida criam expressões que passam para o dia a dia. Entre elas, cita "outro patamar", "festa na favela" e "só você e a torcida do Flamengo", usada para dizer que algo é conhecido por muita gente.
Nenhuma delas chegou ao estatuto. Das frases da torcida, só a de 1929 virou regra escrita, com artigo próprio e proibição de mudança.
No vídeo abaixo, da Flamengo TV, o episódio completo sobre a origem da frase.



