A súmula do árbitro Darío Herrera sobre a final da Supercopa Internacional acusa Juan Sebastián Verón, presidente do Estudiantes, de invadir o gramado e gritar que era preciso matar a arbitragem. O Tribunal da AFA julga o caso na quinta-feira (1º). Pelos códigos da Conmebol e da Fifa, a pena argentina só alcança a semifinal contra o Flamengo se for estendida ao mundo todo.
O relatório veio a público nesta terça-feira (29), três dias depois do jogo, quando o El Gráfico publicou o texto com exclusividade. O El Día, jornal de La Plata, reproduziu os mesmos trechos. O Rosario Central venceu o Estudiantes por 3 a 1, no sábado (26), no estádio Madre de Ciudades, em Santiago del Estero, e o jogo terminou em briga depois do terceiro gol.
Para o Flamengo, que enfrenta o Estudiantes em 15 de outubro, em La Plata, pela ida da semifinal da Libertadores, a dúvida é se alguém do lado argentino fica fora por causa do julgamento. A resposta está em três documentos oficiais: o regulamento da Supercopa, o Código Disciplinar da Conmebol de 2026 e o Código Disciplinar da Fifa.
O que o árbitro escreveu sobre Verón
Segundo o texto publicado pelo El Gráfico, Herrera relata que, logo depois do terceiro gol do Rosario, houve um tumulto entre jogadores e comissões técnicas. Nesse momento, Verón entrou no campo sem autorização e passou a ofender toda a arbitragem, "pero en especial a mi persona", nas palavras do árbitro.
Na súmula, reproduzida pelo El Gráfico e pelo El Día, Herrera registra que Verón disse a frase "hay que matarlos a todos", repetida duas vezes, além de palavrões e da acusação de que os árbitros "vienen mandados". Herrera escreveu que policiais e funcionários do clube precisaram segurar o dirigente, que, segundo ele, queria avançar para agredir a arbitragem. A agressão não aconteceu.
O relatório cita ainda Marcos Angeleri e Pascual Caiella, que Herrera chama de colaboradores do Estudiantes. Os dois também teriam insultado e ameaçado a arbitragem e foram separados pela polícia. Segundo a súmula, Angeleri ainda disse que tinha dinheiro no banco para pagar os árbitros a vida toda.
A briga no túnel ficou sem descrição
O árbitro registrou que houve um confronto no túnel dos vestiários, mas afirmou que não viu nada, porque a equipe de arbitragem estava no meio do campo, escoltada pela polícia, como aponta o El Día. Sem descrição de quem participou, o túnel fica fora da súmula como fato apurado pelo árbitro.
Isso muda o tamanho do processo. O Clarín informou nesta terça-feira que o Tribunal avaliava punir Verón e "varios jugadores" pela confusão perto do vestiário. Com a súmula publicada, os jogadores citados nominalmente são só os dois expulsos.
Os dois expulsos e o goleiro que está na lista da Libertadores
Herrera mostrou dois cartões vermelhos nos acréscimos, ambos por conduta violenta. Pelo Rosario, Agustín Sández, que segundo a súmula provocou o tumulto ao fazer gestos obscenos diante do banco do Estudiantes. Pelo Estudiantes, o goleiro reserva Fabricio Iacovich, identificado pela TyC Sports, que, segundo a súmula, deu socos e chutes num adversário.
Iacovich é o camisa 1 da lista do Estudiantes na Libertadores, segundo o perfil do clube no site da Conmebol, que inscreve quatro goleiros: ele, Rodrigo Borzone, Fernando Muslera e Tiziano Van Der Tuin. O titular da campanha é Muslera, de 40 anos, que jogou todos os jogos da fase de grupos.
Quem julga e quando
O caso está com o Tribunal de Disciplina da AFA, presidido por Fernando Mitjans. O Clarín informa que o colegiado se reúne na quinta-feira (1º), mesmo dia em que o Estudiantes enfrenta o Platense pelas quartas de final da Copa Argentina, em Florencio Varela.
Como o Tribunal só se reúne na quinta, o Estudiantes deve ter o elenco completo contra o Platense, segundo o Clarín. O jogo seguinte é contra o Gimnasia de Mendoza, na segunda-feira (5), no UNO, pelo Clausura, e aí a escalação já pode ter desfalques. O calendário do adversário até a semifinal está na página dos três jogos antes do Flamengo.
Onde a pena é cumprida: o buraco do regulamento
O regulamento da Supercopa Internacional publicado pela AFA tem uma regra para cada tipo de pena. Suspensão por jogos aplicada na Supercopa é cumprida em edições futuras da própria Supercopa, que tem uma partida por ano. Já quem recebe suspensão por tempo determinado "no podrán actuar en ningún ámbito" até cumprir tudo.
O La Nación lembra que a Supercopa é um torneio da AFA, enquanto o Clausura é da Liga Profissional, e que não há precedente, porque as edições de 2022, 2023 e 2024 não tiveram expulsos. Por isso, segundo o jornal, a AFA estuda levar as suspensões por jogos para o Clausura, onde elas teriam efeito real.
O caso mais próximo é de janeiro de 2023. Racing e Boca terminaram o Trofeo de Campeones com oito expulsos no Boca e três no Racing, e o Tribunal mandou cumprir as penas no campeonato de 2023. Dois dias antes da estreia, uma anistia da AFA perdoou as suspensões de até três jogos, relata o La Nación. Darío Benedetto, com quatro, cumpriu na Liga.
Por que a suspensão argentina não entra sozinha na Libertadores
O Código Disciplinar da Conmebol de 2026 diz, no artigo 2, que ele vale para "todos los partidos y competiciones organizadas por la CONMEBOL". A Libertadores tem cartões e suspensões próprios, controlados pela Unidade Disciplinar da confederação, e uma expulsão num torneio da AFA não entra nessa conta.
É o mesmo motivo pelo qual o Flamengo perde Jorginho na ida: ele cumpre suspensão automática pela expulsão contra o Independiente del Valle, na própria Libertadores, como mostra a página sobre o desfalque. Pela regra, o vermelho de Iacovich em Santiago del Estero não o impede de jogar contra o Flamengo, se o técnico Alexander Medina quiser usá-lo.
A porta da Fifa: quando a pena vale no mundo todo
Existe uma exceção, e ela é escrita. O artigo 70 do Código Disciplinar da Fifa, edição de 2025, manda federações e confederações pedirem à Comissão Disciplinar da Fifa que estenda ao mundo todo as sanções por infrações graves. A lista de exemplos inclui discriminação, manipulação de resultados, falsificação e "misconduct against match officials", conduta incorreta contra a arbitragem.
O artigo 72 do código da Conmebol completa o caminho: a suspensão estendida pela Fifa passa a valer "a todas las competiciones", de seleções e de clubes, organizadas pela Conmebol e pelas federações. Ou seja, se a AFA considerar grave a conduta de Verón contra Herrera, punir com prazo e pedir a extensão, a pena atravessa a fronteira e alcança também a Libertadores.
São três passos, e nenhum aconteceu até a noite de terça-feira. O Tribunal ainda não julgou, e só depois de uma decisão com prazo definido é que a AFA pode pedir a extensão. Antes do pedido, pelo próprio código da Fifa, o punido precisa ser avisado de que a sanção será levada à entidade.

Verón já pegou seis meses em 2025
Verón chega ao julgamento com antecedente. Em 2025, o mesmo Tribunal o suspendeu por seis meses de qualquer atividade ligada ao futebol, depois do protesto do elenco do Estudiantes, que deu as costas aos jogadores do Rosario Central no corredor pelo título da tabela anual, segundo o La Nación. Na mesma decisão, os jogadores pegaram dois jogos.
O jornal diz que Verón pode ser tratado como reincidente. O Clarín vai na mesma linha e escreve que, por causa do antecedente, a pena da "Bruja", apelido do ex-meia, pode ser mais longa. Nenhum dos dois jornais cita prazo, e a página não arrisca número.
O que isso muda para o Flamengo
Dentro de campo, pouco. Os jogadores citados na súmula são Iacovich, reserva de Muslera, e Sández, do Rosario. Nenhum titular do Estudiantes foi expulso na final, e as baixas que pesam para a ida já eram conhecidas, como os desfalques por lesão listados na página da derrota na Supercopa.
Fora de campo, a questão é Verón. Presidente do clube, ele esteve com Bap na reunião dos semifinalistas em Luque, como mostra a página do encontro, e o Estudiantes negocia a volta de Marcos Rojo para a semifinal, caso detalhado na página sobre a regra de inscrição. Se a pena for de afastamento do futebol e a Fifa estendê-la, o presidente fica sem função oficial também nos jogos da Libertadores.
Em campo, o adversário é conhecido. Na fase de grupos, Estudiantes e Flamengo empataram por 1 a 1 no UNO, com gol de Luiz Araújo aos 32 do primeiro tempo e de Carrillo, capitão do Estudiantes, aos 9 do segundo, segundo o resumo da campanha publicado pela Conmebol.
Para o torcedor rubro-negro que vai a La Plata, nada muda: a venda para visitantes continua marcada para quinta-feira (1º), como explica a página dos ingressos.
Próximos passos até a ida, em 15 de outubro
O Tribunal da AFA se reúne na quinta-feira (1º). Se houver suspensão por tempo, a AFA decide depois se leva o caso à Fifa. O Estudiantes joga contra o Platense na quinta, contra o Gimnasia de Mendoza na segunda-feira (5) e recebe o Flamengo no UNO em 15 de outubro, às 21h30 de Brasília. A volta é em 22 de outubro, no Maracanã.
A página será atualizada com a decisão do Tribunal e, se houver, com o pedido de extensão à Fifa.



