Léo Moura completou 500 jogos pelo Flamengo em 4 de outubro de 2014, numa derrota por 1 a 0 para o Santos no Maracanã. Ele chegou em 2005 como lateral rodado, sem título profissional, e saiu em 2015 com oito troféus nas grandes disputas e 519 partidas no quadro da Wikipédia, que fala em nove títulos. A conta não fecha em nove.
Números de quem passa dez anos no mesmo vestiário têm um defeito: cada fonte conta de um jeito. Aqui está a conta feita jogo a jogo e título a título, com o que bate, o que não bate e o que só o arquivo oficial do clube resolve.

Os 500 jogos: quando e contra quem
O 500º jogo foi pela 26ª rodada do Brasileirão. O Flamengo perdeu para o Santos por 1 a 0, gol de Robinho. Léo falou da marca antes de a bola rolar: "É grande a emoção de estar completando essa marca. E é comemorar até o juiz apitar o início do jogo. Depois é guerra, é batalha", segundo a Wikipédia. O resultado não deixou a data bonita, mas a conta é redonda.
Dá para medir o ritmo. Ele chegou aos 450 jogos em 6 de outubro de 2013, no 1 a 1 com o Vasco, e aos 500 um ano e dois dias depois: 50 partidas em 363 dias. No meio do caminho, em 22 de fevereiro de 2014, fez o 468º jogo, num 3 a 0 sobre o Resende, e entrou no grupo dos dez que mais vestiram a camisa rubro-negra. Passou o ex-meia Zinho e ficou na 10ª posição. Dali até o 500º foram 32 jogos em sete meses e meio.
O marco anterior, os 300 jogos, veio em 2010, o pior ano dele no clube: o Flamengo terminou o Brasileiro em 14º lugar, lutando contra o rebaixamento, e Léo fez um gol na competição.
Qual é o número final: 517 ou 519?
Depende de onde se olha. O quadro de carreira da Wikipédia traz 519 jogos e 47 gols no Flamengo. Na semana da despedida, a Trivela escreveu que ele completaria 517 partidas contra o Botafogo e, com isso, passaria o histórico Carlinhos na lista dos que mais jogaram pelo clube. A diferença de duas partidas pode estar no amistoso de despedida e em algum jogo contado de forma diferente, mas nenhuma das duas fontes diz isso. Fica como pergunta aberta para o arquivo oficial do Flamengo.
O que as fontes confirmam é a faixa: mais de 500 jogos, perto de 520. Pela Wikipédia, ele saiu como o sétimo jogador que mais defendeu o clube. Em gols, 47 em 519 jogos dá um a cada 11 partidas, média baixa para quem batia falta e escanteio, mas esperada num lateral.
Nove títulos ou oito? A conta que a Wikipédia não fecha
O texto da Wikipédia diz que Léo terminou a passagem com nove títulos, numa frase que compara o total ao de Botafogo, Fluminense e Vasco no mesmo período. Quando se abre a lista de conquistas da própria página, o que aparece nas grandes disputas é isto:
- Campeonato Brasileiro: 2009;
- Copa do Brasil: 2006 e 2013;
- Campeonato Carioca: 2007, 2008, 2009, 2011 e 2014.
São oito. O nono não está identificado em nenhuma das fontes que abrimos, e a gente prefere dizer isso a arredondar para cima. Se entrarem as taças de turno, o total sobe: a lista traz quatro Taças Guanabara (2007, 2008, 2011 e 2014) e duas Taças Rio (2009 e 2011), o que dá 14 troféus somando campeonatos e turnos. Os torneios amistosos, como o Super Clássicos (2013, 2014 e 2015), o Super Series (2015) e o troféu de 125 anos de Uberlândia (2013), ficam fora das duas contas.
O primeiro título só veio aos 28 anos
A Copa do Brasil de 2006 foi o primeiro título profissional da carreira dele. Léo tinha 28 anos, já tinha passado por Botafogo, Vasco, Palmeiras, São Paulo, Fluminense e Braga, e chegava a um Flamengo em seca nacional. A Trivela lembra que o clube ficou fora da fase decisiva do Brasileirão entre 1998 e 2002, muitas vezes brigando para não cair, e perdeu três finais de Copa do Brasil desde 1997, incluindo a de 2004 para o Santo André.
O ciclo virou a partir de 2006. Em 2007, na arrancada que levou o time ao 3º lugar do Brasileirão, Léo foi eleito o melhor do campeonato e levou o Bola de Prata do ano. De 2006 a 2009, quatro anos seguidos, recebeu o prêmio de melhor lateral-direito do Brasileirão. Foi também tricampeão estadual de 2007 a 2009. No Brasileiro de 2009, que acabou com o jejum de 17 anos, a Trivela o descreve como grande coadjuvante, pelo vigor e pelo apoio pela direita, num time comandado por Adriano e Pet.
A frase da despedida e o que a lista mostra
Na saída, Léo resumiu a passagem assim: "foram dez anos e tirando 2010 conquistei pelo menos um título por temporada". É uma boa frase de despedida, e a conta dela não fecha por inteiro. Pela lista de conquistas da Wikipédia, os anos sem troféu de campeonato foram 2005 (ele chegou em meados do ano), 2010 e também 2012. Para a frase valer, é preciso contar torneios amistosos. A fala é dele, e a leitura da Redação é que o tom está certo mesmo quando o detalhe escorrega: foram sete temporadas com taça de campeonato em dez anos.
Um passe, uma falta e um gol perdido
Alguns momentos aparecem sempre que se fala dele. No 5 a 4 do Flamengo sobre o Santos na Vila Belmiro, em 2011, deu a assistência para Thiago Neves fazer o segundo gol rubro-negro, o do 3 a 2. O jogo está em Santos 4 x 5 Flamengo, 15 anos depois. Na estreia do time na Libertadores, contra a Universidad Católica, bateu uma falta com perfeição e, no segundo tempo, deixou Adriano na cara do gol. A Wikipédia o aponta como o jogo mais lembrado por ele.
Também tem o lado que não vai para a galeria. Em 2012, num Flamengo 1 a 0 Vasco pelo Brasileiro, perdeu um gol que 68,6% dos votos de uma enquete do programa "É Gol!", do SporTV, elegeu o mais perdido da rodada. Em 2013, depois de uma longa novela de renovação em que o Goiás chegou a rondá-lo, aceitou uma redução de salário para ficar mais um ano.
Em 2014, na final do Carioca contra o Vasco, cobrou aos 45 do segundo tempo o escanteio que terminou, depois de cabeçada de Wallace Reis na trave, no gol de Márcio Araújo. Foi o quinto título estadual dele e o 33º do clube.
Como foi o adeus em 2015
Depois dos 500 jogos, Léo renovou até o fim do Carioca de 2015. Em 23 de fevereiro de 2015, o clube e o jogador anunciaram a ida dele para o Fort Lauderdale Strikers, dos Estados Unidos. A última partida oficial foi em 1º de março, um 1 a 0 do Botafogo no Maracanã, com 49.833 torcedores, no dia dos 450 anos do Rio de Janeiro. A despedida veio em 4 de março, num amistoso no Maracanã contra o Nacional, do Uruguai: vitória do Flamengo por 2 a 0, com 30.620 pagantes. Antes do jogo, Zico entregou a ele uma placa de homenagem. Nos anos 1990, Léo havia entrado em campo como um dos meninos do jogo de despedida do próprio Zico.
Em agosto de 2015, em entrevista ao ge, ele deu a sua versão do fim: disse acreditar que a saída foi sugerida pelo então técnico Vanderlei Luxemburgo, com respaldo da diretoria, e que queria renovar. É o relato de Léo, citado pela Wikipédia, e não temos a resposta da outra parte. Ele afirmou na mesma entrevista que a proposta do Strikers já existia desde janeiro.
Nos dez anos dele, passaram pelo clube oito presidentes e 15 técnicos, sem contar interinos, e a camisa teve três fornecedores e sete patrocinadores, segundo a mesma página. Léo foi a constante. A Trivela, na semana da despedida, resumiu o lugar dele sem enfeite: "Não foi o craque como muitos laterais que passaram pela Gávea", mas merece ser visto como um dos grandes da posição "pela dedicação e pela liderança".
Onde ele aparece na história dos jogos e dos títulos
A trajetória de Léo se cruza com outras reportagens do site. O ranking de quem mais vestiu a camisa está em os jogadores com mais jogos na história do Flamengo. O título de 2009 tem reconstituição em a última rodada contra o Grêmio e a arrancada do hexa, e o de 2013, em a campanha da Copa do Brasil de 2013.
Para fechar a conta com certeza falta o que só o clube tem: a lista oficial de jogos de Léo Moura, com data e adversário de cada um, e a definição do que o Flamengo conta como título.



